Cibercultura e o “dilúvio informacional”
O dilúvio bíblico como mote para pensar o “dilúvio informacional” (partindo de Pierre Lévy)
"No dilúvio informativo que ameaça fazer desaparecer a sociedade contemporânea, estará reservada à responsabilidade individual, nascida da nossa liberdade enquanto cidadãos, o papel da nova Arca de Noé? Será que a responsabilidade individual ou a grupal possibilitarão a filtragem preservadora daquilo que constitui o património cultural essencial da sociedade humana?" (Questão base para reflexão - Atividade 2 - UC de Educação e Sociedade em Rede).
A noção de cibercultura trazida por Pierre Lévy (1999) abarca consigo a representação do ciberespaço e pode ser entendida como "a expressão de uma nova forma cultural universal, diferenciando-se de outras por não ser determinada por um sentido global ou totalizante. Ela é um sistema aberto e imprevisível, em que não há um modelo a ser seguido" e em que "a mudança é constante e acelerada." (Lévy, 1999).“Com o advento da Internet e suas ferramentas de comunicação e interação, o computador pessoal foi substituído pelo computador coletivo, interligado através de um sistema de rede, assim se estabelece a era da comunicação digital.” (Mussoi, Flores e Behar, 2007).Neste sentido, a cibercultura abrange as formas de comunicação e conexão em rede, a pesquisa, filtragem, troca, partilha e processamento de informação e a socialização e inte-relação que ocorre no espaço virtual, ou seja, no ciberespaço.Lévy (1999), retrata também a cibercultura como "o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço" e refere que a cibercultura "não exclui as ações do mundo físico nem pode ser separada da cultura. Ela engloba fenômenos que acontecem fora do mundo digital, mas que de alguma forma são impactados pelas novas tecnologias, como produções artísticas e intelectuais e a relação entre as pessoas."A cibercultura é “universal, mas não é totalizante” (Lévy, 1999), ou seja, não existe um fluxo único e fechado na cibercultura, mas, antes, existem vários fluxos abertos e redes de comunicação que amplificam, de forma ilimitada e expansiva, o universo da cibercultura, retratando a “mudança constante e acelerada, tornando imprevisíveis os efeitos desse processo” (Lévy, 1999).O ciberespaço, também chamado de rede, é entendido como "o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especifica não apenas a infraestrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo.” (Levy, 1999).
Com maior ou menor consciência e com mais ou menos profundidade, todos nós estamos inseridos, mergulhados e somos participantes da cibercultura e esta realidade tem um impacto bastante significativo sobre a forma como devemos entender a representação atual e também futura da vivência neste contexto tanto na perspetiva das potencialidades e dos novos horizontes que nos proporciona conhecer como das problemáticas e dos desafios que nos coloca e que não são nada pequenos.De forma tal que, Lévy (1999), destaca o acontecimento do dilúvio bíblico e retrata esta realidade da cibercultura como o “segundo dilúvio”, utilizando a metáfora do dilúvio para explicar a inundação global do enorme fluxo de informações que não se pode conter nem limitar e que ocorre por meio da internet e das novas tecnologias no mundo virtual e digital. É neste sentido que é apresentada a ideia de dilúvio informacional.Ao contrário do dilúvio bíblico que aconteceu uma única vez, de forma global e total, inundou toda a terra e não mais se voltará a repetir (Gênesis 9:11 - "E Deus disse a Noé e a seus filhos: Convosco estabeleço a minha aliança, que não será mais destruída toda a terra pelas águas do dilúvio"), a representação do dilúvio informacional não acaba e não há forma de o travar porque é, cada vez mais, como uma chuva intensiva e permanente que inunda o ciberespaço, criando um "oceano de informações sem fundo sólido". (Lévy, 1999).
O que fazer neste contexto onde estamos inundados? O que fazer para não nos sentirmos a afogar neste "transbordamento caótico das informações, a inundação de dados, as águas tumultuosas e os turbilhões da comunicação"? (Lévy, 1999).Como Lévy (1999) refere, "devemos aceitá-lo como nossa nova condição. Temos que ensinar nossos filhos a nadar, a flutuar, talvez a navegar."Diante de tanta (contra) informação e da dificuldade da validação da sua fiabilidade, como poderemos abarcar estas ondas gigantes sem nos afundarmos? Em vez de irmos contra a corrente, devemos estar preparados e saber remar nas correntes enredadas da enxurrada informacional e comunicacional, conscientes de que não é possível abarcar tudo mas apenas algumas gotas do oceano informacional em que estamos mergulhados.
As comunidades virtuais têm aqui um papel preponderante. Estas podem ser entendidas como “uma agregação cultural formada pelo encontro sistemático de um grupo de pessoas no ciberespaço. Este tipo de comunidade é caracterizada pela co-atuação de seus participantes, os quais compartilham valores, interesses, metas e posturas de apoio mútuo, através de interações no universo online.” (Rheingold, 1993).Lévy (1999), considera que a “criação das comunidades virtuais” exercem grande influência no crescimento do ciberespaço a par da “interconexão” e da “inteligência coletiva”.“Conectadas ao universo, as comunidades virtuais constroem e dissolvem constantemente suas micrototalidades dinâmicas, emergente, imersas, derivando entre as correntes turbilhonantes do novo dilúvio.” (Lévy, 1999)."Pensar que poderíamos construir uma arca contendo "o principal" seria justamente ceder à ilusão da totalidade. Todos temos necessidade, instituições, comunidades, grupos humanos, indivíduos, de construir um sentido, de criar zonas de familiaridade, de aprisionar o caos ambiente. Por outro lado, cada um deve reconstruir totalidades parciais à sua maneira, de acordo com seus próprios critérios de pertinência." (Lévy, 1999).Esta é uma tarefa árdua e exigente e implica uma participação ativa e o desenvolvimento da capacidade de filtragem, de análise e de seleção objetiva das redes informacionais, tanto a nível individual como coletivo. Somos chamados a esta tarefa porque a "cibercultura coloca o ser humano diante de um mar de conhecimento, onde é preciso escolher, selecionar e filtrar as informações, para organizá-las em grupos e comunidades onde seja possível trocar ideias, compartilhar interesses e criar uma inteligência coletiva." (Lévy, 1999).Para Lévy (1999), a inteligência coletiva “é um dos principais motores da cibercultura”.A “interconexão favorece os processos de inteligência coletiva nas comunidades virtuais, e graças a isso o indivíduo se encontra menos desfavorecido frente ao caos informacional.” (Lévy, 1999).
Exemplos de Cibercultura na Sociedade Atual:Comunidades Virtuais de AprendizagemAs comunidades virtuais de aprendizagem são um exemplo significativo e crescente de cibercultura e são bastante representativas das dinâmicas e tendências presentes na educação e ensino a distância. No mestrado em Pedagogia do E-Learning temos o exemplos dos blogues e dos fóruns que representam a comunidade virtual de aprendizagem.Atualmente, existem inúmeras comunidades virtuais de aprendizagem das mais diversas áreas e redes de conhecimento e que possibilitam a dinamização, a difusão e a partilha desse mesmo conhecimento de uma forma acessível e abrangente.
Redes SociaisAs redes sociais são um outro exemplo de cibercultura bastante presente na sociedade atual e abrange diversos tipos de redes (como por exemplo: o facebook, o instagram, o whatsapp, telegram, o youtube, entre outros). Este fenómeno de cibercultura é também intergeracional abrangendo várias gerações. Desde os mais novos até aos velhos, hoje em dia, é bastante comum as pessoas terem uma conta e participarem em, pelo menos, uma rede social.
Canais digitais e aplicações (Banca, Saúde, entre outros)Os canais digitais e as aplicações, inseridos nas mais diversas áreas, são um outro exemplo de cibercultura que faz parte do nosso dia-a-dia. Por exemplo: Na área da banca, existe o homebanking onde se pode consultar os movimentos da conta, efetuar pagamentos e fazer transferências bancárias, entre outras funcionalidades. Na área da saúde, também é possível agendar consultas e exames, aceder a prescrições médicas, etc., através dos canais digitais e das aplicações das próprias redes e instituições de saúde.
Canais digitais e aplicações (Banca, Saúde, entre outros)
Conclusão: Estamos imersos numa sociedade que vive e se move na cibercultura em tempo integral e esta é uma realidade que, cada vez mais, se fixa, se amplifica e se transforma trazendo novas redes e conexões.
Neste sentido, considero que sim, que o "dilúvio informativo" em que estamos imersos nos chama à responsabilidade individual e coletiva de navegar nas pequenas arcas das comunidades virtuais trazendo os remos da interconexão e da inteligência colectiva com o intuito de procurar organizar, filtrar e processar as redes no ciberespaço de forma a preservar o património informacional e comunicacional da sociedade humana.


Obrigada pela partilha, achei a reflexão muito bem estruturada, com enfoque no tema central, que é a cibercultura. Neste "Dilúvio informativo", é-nos cada vez exigida uma responsabilidade social e pensamento reflexivo e crítico.
ResponderExcluirA descentralização e consequentemente, o dilúvio de informação, não é sem perigo, mas como disse Fernando Pessoa “Deus ao mar o perigo e o abismo deu/ Mas nele é que espelhou o céu” , não é mesmo?
ResponderExcluir